Por Daniel Medeiros - Arquiteto
Porta de vidro travando, arquiteta fazendo força pra puxar aquilo. Uma câmera filmando e documentando tudo.
Eletricista passando todos os cabos, instalando luminárias, deixando tudo limpo.
Silêncio sepulcral.
Tenho acompanhado a #obradamairacardi e do Thiago Nigro — aquela mansão de 40 milhões, no Alphaville, que foi comprada do Neymar.
Primeiramente, quem sou eu pra falar de erro de gestão para pessoas como a Maíra e, principalmente, o Thiago Nigro — dono do grupo Primo e da maior plataforma de finanças do país. Mas preciso mencionar um padrão que reconheci nos vídeos que relatam os problemas da obra do casal.
Cada erro documentado, um zilhão de visualizações.
É o princípio mais velho do jornalismo.
Cachorro morder homem não é notícia. Homem morder cachorro, sim.
O comum não vende jornal, não atrai anúncio, não para o dedo rolando feed.
E se o canal precisa viralizar, esse princípio precisa ser seguido. Não tem erro aí.
O problema começa quando ele ultrapassa o universo do jornalismo, do conteúdo, do marketing — e entra numa esfera onde ninguém combinou que essa era a regra do jogo.
É como pegar uma regra do vôlei e tentar aplicar no futebol. Funciona num jogo. No outro, vira problema.
Pensa um pouco comigo sobre tudo que aconteceu, não apenas sobre o que apareceu nas mídias.
Uma reforma desse porte passa por centenas de profissionais. Desde os estratégicos, como arquitetos, engenheiros e gestores, até os mais operacionais.
Passaram por essa construção:
E, é claro, os palpiteiros, porque essa função todo mundo cumpre de graça.
É possível que todos tenham errado? Que todas as fases, todas as etapas e todos os serviços tenham tido problema?
Sim, é possível. E se esse for o caso, é melhor a Maíra e o Thiago se benzerem.
Mas estatisticamente, é improvável. Sou mais ousado em inferir que a maior parte da obra aconteceu sem grandes problemas. E que as falhas estariam fora do desvio padrão.
Se isso é verdade, então o que aconteceu com os profissionais que fizeram tudo certo?
Por que não tinha nenhuma câmera apontada pro serviço deles?
A resposta está no princípio do jornalismo supracitado.(Falei igual um jurista aqui)
Só que agora esse princípio foi aplicado a pessoas. E esse é o problema.
Imagina que você é o gesseiro, que já entregou 60% do trabalho e ainda falta finalizar uma parte. Você combinou de retornar pra finalizar após outra equipe terminar um reboco.
Até aqui, tudo entregue com perfeição, com a excelência esperada de todo profissional.
Você foi pra casa depois de um dia cansativo de serviço. Abriu as redes, começou a ver os vídeos da obra da sua cliente — e a única coisa que encontrou foi reclamação sobre o vidraceiro, crítica da marcenaria, dificuldade com a sauna. Tudo isso com a arquiteta ampliando e dando mais voz às reclamações.
(Aqui vale um adendo: a arquiteta não é gestora da obra, e estava em defesa da cliente.)
Seu trabalho sequer foi citado.
Fez tudo certo, estava dentro do prazo, estava até adiantado.
E o silêncio sobre o seu trabalho é absoluto.
Como você entregaria o restante? Manteria a mesma excelência?
Se você respondeu de forma racional, eu acredito que sim, você manteria a excelência — afinal, está sendo pago pra isso. Afinal, isso é a sua obrigação.
Mas inconscientemente, talvez não seja isso que aconteça. Porque nessas horas não é só o dinheiro. É o reconhecimento.
E, quando o reconhecimento não vem, não importa muito como você vai trabalhar — o resultado é o mesmo.
Reconhecimento é dopamina. Mas dopamina boa, não aquela que o cérebro dispara quando estamos rolando feed, mas sim a disparada quando praticamos exercício físico, por exemplo.
A verdade é que inconscientemente a gente quer ser o cachorro que morde o homem, mas produzir os efeitos de um homem que morde o cachorro. Quer fazer o comum com excelência e ser reconhecido por isso.
Todo reconhecimento é expresso com elogio, mas nem todo elogio é um reconhecimento.
Elogio é o que você dá quando quer parecer gentil. Reconhecimento é o que você dá quando quer manter o padrão.
Falar da aparência de alguém, da personalidade, do jeito de ser — isso é elogio. É gentileza. Não tem nada a ver com o trabalho.
Reconhecer é diferente. É falar sobre o que foi entregue. Sobre o talento aplicado. Sobre a dedicação que alguém colocou no ofício.
Você pode até me dizer que esse reconhecimento é feito pela remuneração. Afinal, o profissional está sendo pago. E de fato, uma boa remuneração é sim uma forma de reconhecimento e é claro que deve ser feita.
Acontece que trabalho mal feito também é pago, e quando se trata de reações inconscientes, nosso cérebro não é muito bom com cálculos.
Pagar mais ou pagar menos não faz tanta diferença assim, quando quem está tomando as decisões é o sistema límbico.
Logo, se a única forma de reconhecer é pela remuneração, o trabalho bem feito e o mal feito têm recebido exatamente o mesmo reconhecimento.
É por isso que o elogio, a promoção, a divulgação, um gesto de reconhecimento, fazem toda a diferença. Porque a gente se sente notado. Percebido. Entende que o trabalho tem valor além do que foi combinado no contrato.
Imagina o impacto que uma menção no Instagram, uma pequena marcação de @ nos stories, não teria para cada um desses profissionais? Pensa no alcance do Nigro e da Maíra.
E talvez, nesse pequeno momento, a gente entenda qual é a sensação de ser a manchete do jornal.
A pergunta que fica é: será mesmo que a Maíra e o Thiago não têm reconhecido os trabalhos bem feitos?
Não sei. Vi poucos vídeos em que ela elogiava alguém.
Para ser sincero, vi apenas um, onde ela elogiava a arquiteta — mas elogiava justamente a pessoa que amplificou as suas reclamações e críticas.
Então. Não sei se conta. O que você acha?
Bem, a gente pode afirmar que não está havendo reconhecimento na obra da Maíra Cardi?
Talvez sim, talvez não. Não tenho câmera lá dentro.
Mas talvez esteja acontecendo na sua empresa. Ou no seu time.